Um povo sem História

Desde a Idade da Pedra que os povos espalhados pelo mundo têm a sua História e o seu registro.

Professor Nazareno*
Publicada em 27 de novembro de 2017 às 11:43

Desde a Idade da Pedra que os povos espalhados pelo mundo têm a sua História e o seu registro. Todos os países conhecidos, todas as comunidades, Estados, cidades, regiões, bairros, ruas, vilas e aldeias, enfim, todo aglomerado humano tem preservada a sua memória. Rondônia é um dos 26 Estados que compõem o Brasil, mas este Estado não tem História. A Construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré no início do século XX ligada ao Tratado de Ayacucho e ao Primeiro Ciclo da Borracha devia ser o marco inicial do que hoje é esta sofrível e esquecida unidade da federação. E de fato, é. Porém os quase dois milhões de habitantes daqui simplesmente desconhecem isto. Não só desconhecem sua própria biografia como de um modo geral participam ativamente da destruição do que restou do patrimônio histórico da velha e abandonada estrada de ferro.

Sob o olhar complacente e cúmplice da população e também das autoridades rondonienses, a “Ferrovia do Diabo” deixou de existir já há um bom tempo. Do trajeto original de mais de 320 quilômetros entre Guajará-mirim e as Cachoeiras do Santo Antônio no rio Madeira praticamente não existe mais nada. Dos sete últimos quilômetros entre a hidrelétrica de Santo Antônio e Porto Velho, que resistiram um pouco mais no tempo, só restam lembranças amargas, matagal, ferros retorcidos, dormentes apodrecidos e muito abandono. Quase impossível caminhar ali sem ser ferrado por um bicho peçonhento ou picado por um inseto. O cemitério de locomotivas largado e apodrecendo solenemente dentro daquele matagal faz qualquer um que entenda um pouco de história chorar de tristeza. A “mãe de Rondônia” agoniza ao léu.

Os rondonienses conseguiram em menos de cem anos destruir por completo um patrimônio histórico de grande valor para a humanidade. Nos países europeus, por exemplo, há História por onde se ande. Não é difícil ver relíquias arquitetônicas datadas de séculos, milênios. Isso depois de duas grandes guerras mundiais e de várias revoluções que varreram as cidades do Velho Continente. Nenhuma guerra aconteceu no solo da velha EFMM. Seus trilhos foram arrancados e hoje servem de proteção a muitas casas. A sua praça é hoje um dos maiores “santuários” de fezes humanas que existem na capital de Rondônia. Os rondonienses parecem odiar aquele espaço urbano: em toda festa e confraternização que se faz ali muitas garrafas pet, lixo, merda, papel e toda sorte de imundície são largados. Drogas e preservativos usados é o que mais se vê.

Muita gente hoje, infelizmente, não quer saber de nenhum patrimônio histórico ou arquitetônico. Para muitos só interessa o dinheiro e nada mais. Durante a enchente histórica em 2014, as águas barrentas do rio Madeira avançaram lentamente sobre o que restava das carcaças enferrujadas da velha ferrovia. Como ninguém fez nada, o velho Madeira veio, veio, veio e parece que “se vingou” da arrogância, da falta de interesse histórico e da passividade mórbida dos rondonienses. Lama podre, peixes mortos, peças encharcadas, trens alagados e galpões danificados foi o resultado do desinteresse. O que ainda restava de História foi levado para o fundo do rio. Rondônia hoje não tem mais registro. É como se o lugar não existisse. O pouco que se sabe é contado por meio de relatos orais dos mais velhos aos mais novos. Aqui é como se fosse uma grande aldeia indígena. E quando caírem as Três Caixas d’Água, Rondônia desaparecerá para sempre.

*É Professor em Porto Velho.

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