Museus a céu aberto

Em Rondônia, fiz questão de recuperar, com a ajuda de companheiros, o túmulo do major Emanoel Silvestre do Amarante, morto em 1929 e sepultado no Cemitério dos Inocentes, em Porto Velho.

*Julio Olivar
Publicada em 02 de novembro de 2017 às 16:49
Museus a céu aberto

Existe um tabu sobre a morte. No entanto, algumas iniciativas mostram que os cemitérios são vitais para a compreensão da história e da memória. Formam verdadeiras cidades com distinções sociais, informações, arquiteturas e obras de arte que dizem muito sobre os personagens, seu tempo e a própria sociedade. Desde quando visitar cemitério é coisa para turista? Acontece que o Greenwood é uma das principais atrações de Nova York desde o século 19. Era um dos programas favoritos dos novaiorquinos que iam visitar os túmulos das celebridades enterradas no local, e aproveitar a beleza do parque. Ainda nos EUA, há um cemitério, o Nacional de Arlington, em Washington, em que citytour guiado custa 9 dólares. É onde está sepultado o ex-presidente John Kennedy.

Não é diferente na Europa onde há vários cemitérios visitados por turistas na França, Espanha, Itália... Destaco o Cemitério de Highgate, em Londres, tendo como habitante mais ilustre o sociólogo alemão Karl Marx. As visitas guiadas a esse logradouro custam 8 libras. O Père Lachaise, em Paris, também promove o turismo. Além da beleza do lugar, chamam a atenção mortos notáveis como Honoré de Balzac, Marcel Proust, Edith Piaf e Jim Morrison. Em Pequim, o cemitério de Babaoshan é o mais famoso da China, onde estão enterrados heróis revolucionários e membros de dinastias chinesas.

Em Buenos Aires, o túmulo de Evita Perón figura entre os atrativos turísticos da cidade em guias oficiais. Gente do mundo todo frequenta o local simples, nada monumental perto da grandeza do que foi a dama portenha idolatrada até os dias de hoje. No Brasil, alguns cemitérios já oferecem serviços turísticos. Exemplo, o da Consolação, em São Paulo. Lá, aliás, está sepultado o primeiro prefeito eleito de Porto Velho, o médico, sertanista e jornalista Joaquim Tanajura, fundador do jornal Alto Madeira. Repousa Tanajura entre expoentes de tantas áreas, que vão de santos populares, passando por presidentes da República até nomes como Monteiro Lobato e Conde Matarazzo.

No Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, descansam, entre tantos nomes famosos, Santos Dumont, Tom Jobim, Carmem Miranda e o legendário Marechal Cândido Rondon, co-fundador e patrono de Rondônia. Lá, 150 jazigos dispõem de QR Codes que levam às informações na internet sobre os mortos e é primeiro cemitério a oferecer tour virtual pelo Google Street View. Rondon, que era um homem de vanguarda e amava a tecnologia, ao mesmo tempo em que tanto prezava as raízes, certamente gostaria da ideia de promover cemitérios como museus a céu aberto.

Tal afirmativa se sustenta no fato de que o militar voltou ao seu local de nascimento, Mimoso (MT), tendo mais de 80 anos de idade, justamente para construir o túmulo de sua mãe e fazer dele um monumento colocado à entrada da escola que leva o nome de sua genitora para que todos o avistem. E mais: Rondon foi quem esboçou o desenho do jazigo dele próprio fazendo constar a maior expressão da Filosofia Comtista a qual o herói fez sua religião: “o amor por princípio, a ordem por meio e o progresso por fim”.

Em Rondônia, fiz questão de recuperar, com a ajuda de companheiros, o túmulo do major Emanoel Silvestre do Amarante, morto em 1929 e sepultado no Cemitério dos Inocentes, em Porto Velho. Amarante era genro de Rondon e seu braço direito, o único oficial da Comissão das Linhas Telegráficas MT/AM sepultado em solo rondoniense. Saber mais sobre Amarante é mergulhar em informações importantes sobre a formação de Rondônia, envolvendo questões indígenas, geológicas, de comunicação, da lenda de Urumacuã, de política (teria sido ele, decerto, o primeiro governador do Guaporé não tivesse morrido cedo; Aluízio Ferreira era seu súdito). Sob o túmulo de Amarante, sobre o qual o velho militar Rondon chorou e depositou flores; foi a visita a esse local o motivo de sua última vinda a Porto Velho, em 1930.

Ainda no Cemitério dos Inocentes fiz questão de revitalizar o túmulo do poeta Vespasiano Ramos, morto em 1916, quando Porto Velho era um vilarejo de apenas dois anos de existência. O ato trouxe lustro à memória apagada daquele que é considerado o precursor das letras em Rondônia e que figura no Mapa Brasileiro de Literatura. E pretendo mais: vou agora recuperar o túmulo de Raimundo Cantuária, o dirigente do Banco da Borracha que foi fundamental no segundo ciclo do látex na região. Com isso, mostrar a muitos o que significou esse personagem que é nome de umas das avenidas principais da cidade e cuja trajetória tem interfaces com a fundação dos seringais Papagaio e Canaã, que deram origem à cidade de Ariquemes.

Recentemente, procurei - sem êxito - onde ficava o túmulo da cientista e dama da ornitologia mundial, Emilie Snethalage, também sepultada no Cemitério dos Inocentes em 1929. Por não conseguir encontrar o local do sepulcro, encomendei, por minha conta, um busto dela e o afixei nas imediações do Memorial Rondon, recém-inaugurado pelo governador Confúcio Moura, um entusiasta e apoiador de todas essas iniciativas.

São ações pontuais, eu sei. É preciso muito mais. Assim, passado e presente se fundem. Os cemitérios e os monumentos são peças fundamentais nesta odisseia da existência. A morte é o último capítulo de uma história e merece ser tão bem contado quanto todas as demais páginas que precisam ser relidas e revisitadas para que não sejamos pautados apelas pelo agora que se esvai num estalar de dedos. Homens e mulheres não morrem, como bem poetou Guimarães Rosa: "O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas".

*Júlio Olivar, jornalista, escritor e presidente da Academia Rondoniense de Letras, é superintendente estadual de turismo.

Comentários

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    Poliana Prado 02/11/2017

    Parabéns.

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