01/01/2017 - 09h08min - Atualizado em 01/01/2017 - 09h08min

Coiote de Ji-paraná devolve dinheiro à família de rondoniense desaparecido nas Bahamas

Seguindo a indicação de amigos, a família contratou um coiote de Ji-Paraná para efetivar a travessia. Araújo embarcou de Porto Velho para Brasília no dia 14 de outubro. Depois de escala no Panamá, o rapaz chegou às Bahamas no dia 15 de outubro.

 

A família de um dos brasileiros desaparecidos nas Bahamas desde o dia 6 de novembro recebeu de volta o dinheiro pago aos coiotes que articulavam a tentativa de travessia ilegal de imigrantes para os Estados Unidos. Segundo a comerciante Marta Gonçalves, mãe de Diego Gonçalves Araújo, que está no grupo desaparecido, o coiote contratado pela família devolveu todo o dinheiro semana passada, antes ainda do assunto sair na mídia. “Para nós ele prometeu uma coisa bem diferente, que a travessia era segura e tranquila. Mas, não foi isso o que aconteceu. Meu marido pressionou tanto que ele devolveu todo o dinheiro”, conta Marta.

O filho de Marta tem 20 anos e estava fazendo curso de técnico de enfermagem. Ela conta que o jovem sonhava em fazer “um pé de meia” nos Estados Unidos. Seguindo a indicação de amigos, a família contratou um coiote de Ji-Paraná (RO) para efetivar a travessia. Araújo embarcou de Porto Velho (RO) para Brasília no dia 14 de outubro. Depois de escala no Panamá, o rapaz chegou às Bahamas no dia 15 de outubro. O último contato com a família foi no dia 5 de novembro. “Ele disse que tava 'de boa, tudo beleza' e que atravessaria naquela noite”, disse Marta.

A família já tinha pago todo o valor combinado, só faltava uma parte que foi parcelada correspondente a etapa final da travessia dos Estados Unidos. A família não quer revelar a quantia paga e devolvida. Marta disse à Agência Brasil que o coiote reconheceu que a travessia não deu certo e que ele também não sabe o que aconteceu. “O que ele fala é que nunca viu uma coisa dessa acontecer, sumir tantos dias assim. Ele acredita que eles estão presos em outro país da região”, conta Marta.

Ainda segundo relatos do coiote à família, o grupo de desaparecidos seria formado por 12 brasileiros (dez homens e duas mulheres), cinco pessoas da República Dominicana e dois tripulantes de Cuba (um barqueiro e seu auxiliar). Para a família, o traficante disse que os dominicanos teriam entrado em contato com a família 12 dias depois da data da travessia e disseram que eles estavam presos num lugar sem energia, esperando para serem liberados. “Parece que eles estariam num abrigo que foi danificado pelo furacão, em um lugar difícil”, afirma Marta.

A informação de que o grupo estaria preso em algum lugar, hipótese inclusive considerada por autoridades policiais norte-americanas, deu esperança para as famílias de que o grupo poderia efetivar a travessia ou ser encontrado. Mas, como já se passaram vários dias sem notícias, Marta decidiu ontem (30) ir à delegacia regional da Polícia Federal em Rondônia para registrar pela primeira vez boletim de ocorrência do desaparecimento de seu filho. A PF disse que vai acionar a difusão amarela, alerta internacional para busca de pessoas desaparecidas.

Marta também buscou ajuda da representação diplomática do Brasil nos Estados Unidos e nas Bahamas, dos quais recebeu a informação de que o governo segue nas buscas e ainda não tem novidades. A falta de informação tem trazido angústia aos parentes. “Nossa rotina mudou muito. A gente só trabalha porque tem contas pra pagar. Eu e meu esposo estamos totalmente desanimados.”, relata.

Falta de informação

Outro brasileiro que não entrou mais em contato desde 5 de novembro é Márcio Pinheiro de Souza, de 26 anos, natural de Sardoá, Minas Gerais. De acordo com o relato de parentes, Souza já tinha tentado entrar ilegalmente nos Estados Unidos pelo México. Na primeira tentativa, o rapaz foi preso pela polícia norte-americana e passou cinco meses detido. Depois de 20 dias que já tinha voltado ao Brasil, ele entrou em contato com um grupo diferente de coiotes e embarcou em nova tentativa de ingresso ilegal nos Estados Unidos, dessa vez pelas Bahamas.

Souza embarcou no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, no dia 27 de outubro para São Paulo, de onde saiu rumo às Bahamas. Chegando às Bahamas, o rapaz contou para a família que foi levado para uma casa, junto com outros brasileiros, onde ficaram até o dia 6 de novembro aguardando o embarque. Souza se encontraria com seu irmão Geraldo Souza, que já vive nos Estados Unidos. “Está tudo do mesmo jeito, a gente não tem notícia nenhuma não”, disse o irmão.

No caso de Márcio Souza, a quantia combinada para a travessia só seria paga aos coiotes depois da chegada bem-sucedida ao território norte-americano. “Algumas pessoas estão pensando que a falta de pagamento adiantado pode ter dado problema. O pessoal estava perguntando para ele lá no abrigo se ele não iria pagar a metade. Aí eu cheguei a falar que pagava a metade para ele, que era o que estava combinado. A outra metade ia pagar lá no Brasil, para o coiote de lá”, conta Geraldo Souza, que falou pela última vez com o irmão no dia 5 de novembro. Daí em diante, manteve contato com os coiotes contratados, mas eles alegam que também estão à espera de informação do paradeiro do grupo.

Mistério

Desde 6 de novembro, um grupo de 19 imigrantes (entre brasileiros, dominicanos e cubanos) é considerado desaparecido depois de tentativa de travessia ilegal das Bahamas para os Estados Unidos. O Itamaraty recebeu a primeira consulta dos parentes brasileiros no dia 15 de novembro. Desde então, o governo brasileiro, em parceria com autoridades migratórias e marítimas dos Estados Unidos e das Bahamas, segue nas investigações do que pode ter ocorrido com os desaparecidos.

Um relato anônimo aponta que o grupo foi dividido em dois barcos e teria seguido por uma rota mais longa, alternativa à previamente planejada, para driblar a vigilância marítima, que teria sido acionada por denúncia. Mas, até o momento, não há informação oficial de registro de detenção de nenhum dos integrantes da lista do grupo desaparecido, nem vestígio do trajeto feito pela embarcação.

 

Da Agência Brasil

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